A língua Puruborá é a língua tradicional do povo Puruborá e pertence à grande família linguística Tupi. O povo Puruborá é habitante desde tempos imemoriais da região do atual estado de Rondônia. Desde meados do séc XX, os Puruborá passaram por diversas situações de exploração e acabaram sendo forçados a dispersar e/ou silenciar sua identidade étnica, mas possuem uma longa história de lutas e resistência (Montanha, 2014; Oliveira Neto, 2020; Puruborá, 2021). Devido aos impactos de um longo processo de exploração, de dispersão e de abandono por parte do estado, a língua Puruborá chegou a quase desaparecer (Galucio, 2005; Oliveira Neto, 2020). Nesse contexto, a língua Puruborá deixou de ser usada como forma de comunicação na interação cotidiana, sobrevivendo apenas na memória dos anciãos. Em 2020 haviam dois falantes idosos, mas um deles, o Sr. Nilo Puruborá, faleceu no início de 2021. Por outro lado, há uma iniciativa da comunidade de ensinar/aprender a língua na escola indígena Puruborá, onde existe um professor da própria etnia, contratado para ensinar aspectos tradicionais da cultura, aí incluído o ensino da língua originária do povo.
Existe pouca informação publicada sobre a língua Purubora, além de listas de palavras coletadas no século XX, há um artigo publicado por Ruth Monserrath (2005) com dados e informações linguísticas. Ana Vilacy Galucio realizou projeto de documentação da língua Puruborá, com os anciãos, de forma intermitente no período de 2001 a 2006, produzindo um acervo de dados linguísticos depositados no Centro de Documentação de Línguas Amazônicas no Museu Goeldi. Há uma base de dados com aproximadamente 700 entradas lexicais, cobrindo vários campos semânticos (fauna, flora, cores, relações de parentesco, verbos etc). Entre os resultados desse trabalho estão alguns artigos descritivos (Galucio 2005, Santos 2007) e um vocabulário ilustrado de Animais na Língua Puruborá (Galucio; Aporeti; Puruborá, 2013), que apresenta aproximadamente 220 nomes de animais, com exemplos de uso em sentenças. Atualmente, os Puruborá estão dando continuidade às ações de fortalecimento cultural e aprendizagem do conteúdo linguístico possível da língua tradicional, a partir do conhecimento ainda guardado pelos anciãos e registrados através dos trabalhos de documentação e pesquisa linguística. No tocante à revitalização da língua Puruborá, o locus principal do trabalho está sendo realizado no âmbito da educação escolar, utilizando a Escola Indígena Estadual de Ensino Fundamental Ywará Puruborá. O vocabulário de animais vem sendo utilizado na Escola Indígena como material didático de apoio à alfabetização na língua Puruborá, através do trabalho do professor Mario Oliveira Neto, contratado como sabedor indígena do povo Puruborá.
O sistema fonológico da língua Puruborá possui 14 fonemas consonantais e 13 fonemas vocálicos, sendo 7 vogais orais e 6 vogais nasais. A representação ortográfica desses fonemas é feita pelas seguintes consoantes {b, d, g, j, h, k, m, n, p, r, t, x, w, ’} e vogais {a, â, e, i, o, u, y} e {ã, ẽ, ĩ, ỹ, õ, ũ). Essas consoantes representam respectivamente os seguintes fonemas / b, d, ʒ, j, h, k, m, n, p, ɾ, t, ʃ, w, ʔ/ e as vogais representam o fonemas vocálicos orais /a, ə, ɛ, i, ɔ, u, ɨ/ e nasais /ã, ɛ̃, ĩ, ɔ̃, ũ, ɨ̃/, respectivamente (Galucio 2005). A nasalidade da vogal é indicada pelo uso do til (~). O acento tônico é fixo na última sílaba da palavra, por isso, não é marcado. O sistema ortográfico da língua Puruborá foi inicialmente discutido com membros da comunidade Puruborá, em setembro de 2005, na Aldeia Aperoy e posteriormente definida em Assembleia Geral do Povo Puruborá, realizada em Julho de 2007. Uma revisão da proposta inicial foi realizada em 2012, na Escola EIEEF Ywara Puruborá, aldeia Aperoy, com o Professor Mário Oliveira Neto, a partir da experiência do uso da ortografia com os alunos da escola. A versão final do sistema ortográfico da língua utilizada no presente dicionário contempla as escolhas feitas pela comunidade Puruborá, com base em informações técnicas sobre a estrutura do sistema fonológico da língua e das opções possíveis de representação gráfica para obter uma forma eficiente de registro gráfico (Galucio, Aporete Filho, Puruborá 2013).